Tarde Demais - Capítulo I

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     Sempre tive consciência que minha família não era convencional: ele, um tirano impositor que se rebaixava à escala mais medíocre do machismo, e ela, uma dona de casa sofredora que mantinha no corpo as marcas agressivas de um marido intimidador. Talvez seja por isso que sejamos tão desestruturados. Em plenos quinze anos de vida, ainda sinto o peso doloroso de nunca poder ter feito nada. Minha vulnerabilidade era tamanha que minha relutância em defender minha mãe ocorria quase todas às vezes, afinal, o que eu poderia fazer? Ele não tardaria em me machucar só por lhe confrontar pelos seus atos. Isso já seria motivo mais que suficiente.
     Era meu pai quem nos sustentava. Seu dinheiro era servido apenas para tarefas domésticas básicas e ele nunca hesitava em dizer que seu trabalho na fábrica de automóveis foi o que nos fez comprar nossa própria casa. O resto do dinheiro era gasto com bebidas e cigarro. Minha mãe sempre o contradizia pelo fato de que ela também ajudou a financiar a casa. Ela sempre argumentava que conseguiu seu pequeno montante em um trabalho exaustivo como doméstica, ao longo de seis anos. Trabalho esse que meu pai teimou em fazer com que ela desistisse, alegando que mulher não trabalha fora. Confesso, para mim seu pensamento era antiquado, mas não estava ao meu alcance questioná-lo.

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     Com o passar do tempo, as surras se tornaram constantes. Meu pai descontava as frustrações de seu trabalho nas costas de minha mãe, fazendo-a chorar diariamente. Meu coração doía ao presenciar isso e procurávamos conforto uma na outra.
     A vizinhança sabia o que acontecia dentro de casa. Mas acredito que a índole severa de meu pai os prendiam de fazer qualquer coisa contra ele. Seu Arthur era temido até pelos vizinhos.
     E aconteceu. Ela foi embora e me deixou a mercê de meu pai. Seu ato foi todo premeditado. Numa noite em que ele estava no bar, mamãe deixou um bilhete na geladeira, fez as malas e, em meio a soluços e lágrimas, me disse que não aguentava mais e que voltaria para me buscar, assim que se estabilizasse financeiramente. Além disso, sussurrou em meu ouvido que passaria a morar na casa de sua irmã e implorou para que não contasse a meu pai – apesar de parecer óbvio. Meu amargor dilacerava meu coração. Mas acreditei que seria o melhor pra ela.
     Depois de mais velha, meu pai raramente levantava um dedo contra mim, salvo algumas exceções em que eu me impunha contra ele. Arthur Brandão limitava-se apenas a agressões verbais. Apesar de tudo, não podia negar que gostava dele, mas não me sentia bem em ser só nós dois.
     No fatídico dia, assim que chegou de madrugada, só ouvi seu grito a me chamar. Levantei assustada da cama, e me deparei com um homem alterado e possesso na cozinha. Seus gritos alarmantes soaram de forma estridente e tive quase certeza que acordaram boa parte da vizinhança:
     – Mariana, o que significa isso? Cadê sua mãe? – berrou meu pai. Nisso, pude sentir seu hálito alcóolico. Nesse momento só conseguia chorar, olhar para ele e sentir pena.

Continua...

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