Tarde Demais - Capítulo II

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     Os momentos seguintes à saída de minha mãe foram difíceis. Meu pai não havia sequer tomado banho e ficou a madrugada toda perambulando pela casa com seu inseparável maço de cigarros a mão. Naquela manhã de segunda, porém, o clima amanheceu pesado. Ele estava sentado à mesa de jantar e pude perceber que seus olhos estavam vermelhos e seu cheiro impregnava a casa toda. Havia manchas vermelhas por todo seu pescoço. Naquele momento, apenas anunciei minha saída para a escola e saí da casa onde cresci e vi meus pais apaixonados viverem seus melhores momentos, há muito tempo atrás.
     Quando voltei, notei meu pai sentado no sofá com os olhos fixos em um retrato de nossa família: eu, ainda criança, e os dois abraçados e sorridentes. Assustei ao perceber que uma tesoura estava ao seu lado e, ao me aproximar para pegá-la, ele disse:
     – Mariana, por que ela fez isso? Reconheço que nunca fui o marido mais sensato do mundo, mas isso não é desculpa – ele bateu com seu punho calejado na mesinha de centro e percebi seu estado de fúria. Seu tom de voz estava alto, como de costume, mas dessa vez soava diferente.
     Ao ouvir isso, meus olhos encheram de lágrimas e fiz uma força descomunal para não gritar com ele tudo o que pensava. Por fim, disse apenas:
     – É o que você merecia. De que valeram todos esses anos de um casamento sem respeito? Minha mãe tinha medo de você. – solucei – Não te reconhecíamos mais. Você é um monstro, pai. – minha voz saiu embargada. Limpei meus olhos e me dirigi a meu quarto. O estrondo da batida da porta foi mais alto do que imaginei.
     Já na minha cama, lembrei que não havia pegado a tesoura.

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     Ao sair do quarto, alguns minutos depois, a casa estava silenciosa. Preparei o almoço e deixei a comida de meu pai na geladeira. Provavelmente ele havia ido trabalhar, afinal, tinha perdido o período todo da manhã. 
     O sol batia na janela e refletia no chão de cerâmicas escuras. Aquilo definitivamente não me animava. Não estava com vontade de fazer nada, mas cheguei à conclusão de que precisava me distrair: passei a tarde toda arrumando a casa. No fim dela, antes do sol se pôr, fui surpreendida com uma ligação de minha mãe. Ela estava bem e tia Sandra havia lhe recebido de braços abertos. Contei a reação de meu pai e ressaltei que ele não trabalhou pela manhã. Minha mãe estava receosa quanto às atitudes dele e preocupava-se em pensar que ele poderia ter me machucado. Mas isso não aconteceu e logo tratei de acalmá-la. 
     Anoiteceu e meu pai não havia chegado. Fiquei preocupada, mas presumi que ele estava bebendo com seus amigos.

                                                                       •••••••••••••••••

     Acordei com gritos e batidas grosseiras vindos da porta principal. Já eram quase onze da noite e nem sinal de meu pai. Levantei cambaleante do sofá, abaixei o volume da TV e abri a porta. Fiquei pasma ao ver um homem – provavelmente amigo dele – trazê-lo sob o ombro. Ele estava delirando e com um cheiro insuportável de álcool. Assustada, perguntei: 
     – Mas o que aconteceu? Porque ele está assim? – meus olhos encheram de lágrimas. 
     Antes de me explicar, o homem entrou de supetão dentro da casa e colocou o corpo bêbado de meu pai no sofá. 
     – Ele não foi trabalhar hoje. – disse com uma voz cansada – Quando saí da fábrica, decidi passar alguns minutos no bar que frequentamos e ele estava lá, caindo de bêbado. Seu Silas me disse que ele ficou lá o dia todo. Bebendo tudo o que via pela frente. Insisti para irmos embora e ele relutou. Até que chegou nesse ponto. 
     Não era possível. Seu Arthur bebia, mas nunca chegou nesse estado deplorável aqui em casa. Agradeci o homem pelo ato e fiquei imóvel em frente ao sofá, vendo meu pai roncar e babar por toda a almofada. E o pior, é que eu não podia fazer nada. Não tenho condições de carregar um homem desse porte pra lugar algum. Apalpei sua testa suada e percebi o quanto estava quente. Dirigi-me à cozinha com a intenção de pegar um comprimido com um copo d’água. Demorei alguns minutos, pois não estava conseguindo encontrar o remédio correto para febre. 
     Quando voltei, seus roncos haviam cessado. Ao me abaixar para colocar o remédio em sua boca, não conseguia mais ouvir o movimento de sua respiração. Entrei em desespero. 
     Em menos de vinte minutos, homens estavam prendendo meu pai à maca e nos dirigíamos ao hospital. Meus olhos estavam inchados.

Continua...

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