Tarde Demais - Capítulo III

1 Comentario

     Ele estava em coma alcoólico. Segundo o médico responsável, o excesso de álcool no corpo teve de ser retirado o mais rápido possível, para que os danos ao organismo fossem minimizados e ele recuperasse sua consciência.
     Passei a madrugada toda no hospital. Quando amanheceu, recebi a notícia que meu pai havia acordado, porém ainda persistiam alguns sintomas contraditórios. Ante a autorização médica, fui ao seu quarto para vê-lo. Ele acabara de dormir novamente e estava tomando soro nas veias. Percebi que suas manchas no pescoço aumentaram significativamente e sua sudorese era intensa. Tateei sua testa e ela ainda estava quente. Após isso, não tardei em chamar o doutor para me ceder explicações. Percebendo minha preocupação, ele disse:
     – Soube que você passou a madrugada inteira aqui. Você é a filha dele, certo? Não teria outra pessoa responsável que viva com vocês? De acordo com os dados fornecidos por você logo na entrada, ele é casado. – o médico me transpareceu preocupação, mas, apesar de tudo, sua voz era reconfortante.
     Na correria da noite, minha preocupação era maior que qualquer pergunta feita a mim. Lembro-me de ter fornecido os dados pessoais de meu pai – tais como nome, endereço, idade – e, em um breve momento de divagações, afirmei que ele era casado.
     – Meus pais se divorciaram. Devo ter me enganado. Atualmente, a pessoa mais próxima dele sou eu. – olhei em seus olhos – Diga-me, doutor, o que ele tem? – minha voz estava rouca e minha barriga fez um leve barulho, me fazendo corar. Definitivamente aquele pequeno pão de queijo não me sustentou.
     – Quando seu pai chegou, prognosticamos coma alcoólico. Mas assim que peguei em mãos o resultado de seus exames, agora a pouco, descobri um diagnóstico alarmante: concluiu-se que seu pai possui linfoma em estágio avançado. Foi um caso de extrema sorte ele vir parar no hospital nesse momento, afinal, a doença estava sucumbindo seu corpo todo e, muito em breve, iria lhe custar a vida. – ele suspirou, pegou os papéis que estavam em suas mãos e revisou antes de me dizer qualquer coisa. Percebendo meu estado de agonia, disse, olhando em meus olhos e ao mesmo tempo lendo:
     – Mariana, linfoma é uma forma de câncer que se origina nos linfonodos do sistema linfático, um conjunto composto por órgãos e tecidos que produzem células responsáveis pela imunidade e vasos que conduzem estas células através do corpo.
     Não compreendi a explicação do médico. Aquilo que me dissera parecia mais algo retirado de algum livro de biologia. Antes de eu dizer qualquer coisa, continuou:
     – Seu pai possui o sistema imune desprotegido, como consequência de anos ingerindo álcool no organismo. O desenvolvimento de linfonodos – essas manchas que estão próximas à pele, no pescoço, axilas e virilhas – ocorreu de uma maneira indolor, fazendo com que adiasse a procura de seu pai por um hospital. Amanhã poderia ser tarde de mais.
     “Custar sua vida”.
    Lágrimas escorriam de meus olhos. Nessa explicação formal dada a mim, uma única palavra entrou na minha cabeça e não saiu mais: câncer. Não era possível. Meu pai não poderia ter câncer. Só pode ser brincadeira do médico. Senti um turbilhão de emoções e comecei a chorar. Não mais que de repente, notei minhas pernas enfraquecerem.

•••••••••••••••••

     O sol estava quase se pondo. Uma enfermeira bondosa com quem fiz amizade quando me sedaram, me levou em casa para poder tomar banho e me trocar. Estava há muito tempo sem comer, então a convidei para entrar e esquentei comida para nós duas. Coube ao médico à tarefa de contar o diagnóstico a meu pai, agora, acordado e lúcido.
     Assim que acabamos de comer, me dirigi ao quarto de meu pai e juntei algumas roupas. Ele precisava de um banho. Assim que organizei tudo em uma mala, liguei para minha mãe. Contei tudo o que passamos e percebi seu espírito preocupado. Nós duas choramos na linha. Ressaltei que estava bem e que ligaria para contar o que precisasse. Em menos de uma hora, já estava pronta para voltar e nos dirigimos de volta ao hospital.
     Ao chegar ao quarto de meu pai, notei seus olhos vermelhos. Mas dessa vez havia algo diferente: eram consequências de um tempo relativamente longo chorando. Meu coração ficou na mão e, então, comecei a chorar – novamente. Meu pai poderia ter feito o que fez, mas ainda era meu pai:
     – Você vai sair dessa, pai. – disse, em meio a soluços – Não se preocupe.
     Nesse momento aconteceu uma cena que jamais pensei em presenciar. Agora, sentado na cama, ele começou a chorar feito uma criança. Seus gemidos de choro eram altos e, em meio às lágrimas, tosses e soluços, pronunciava frases nas quais eu não estava conseguindo entender. Naquele quarto pequeno de hospital, meus sonhos haviam desabados. Nem sei qual de nós estávamos chorando mais. Instintivamente me aproximei dele, em cima do leito, para lhe dar um forte abraço. Assim que o fiz, ele sussurrou em meus ouvidos:
     – Me perdoe, filha.

Continua...

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