Tarde Demais - Capítulo IV

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     Passei a noite na poltrona ao lado da cama de meu pai. Os médicos não tardaram em introduzir mais soro em seu organismo, de forma a suprimir a desidratação causada pela doença. Acordei com a coluna travada e, ao me levantar para alongar, notei meu pai me fitando. Sentei novamente na poltrona e disse:
     – Pai, você está bem? Como passou a noite? – dei um leve bocejo.
    – Estou bem, filha. – sua voz estava rouca – Mariana, por que está fazendo isso por mim? Sempre fui rígido com você e minha imposição era o que mais te preocupava. Minha última lembrança nossa lá em casa é de você me chamando de monstro. – seus olhos lacrimejaram.
     Entendi sua pergunta, e respondi:
  – Quando mais nova, sempre achei que suas atitudes eram de um pai e marido preocupado. Mas com o passar do tempo, passei a achar que era covardia o que você fazia. Seu machismo e sua imposição foram tão longe a ponto de você passar todos esses anos sendo cafajeste fora de casa e espancando minha mãe por nada – nesse momento, meu rosto encharcou – Você não tinha esse direito.
     Meu pai ficou com a cabeça baixa ouvindo tudo. Eu sei que ele concordara comigo. Por fim, continuei:
     – Mas você é meu pai. E seria injusto te abandonar no momento que você mais precisa de ajuda.
     Em meio às lágrimas nos abraçamos. Daquele momento até a hora do almoço, meu pai me contou sobre seus sintomas que nunca fez questão de nos informar. Talvez por orgulho. De algum tempo pra cá, sua sede se tornou cada vez mais intensa e sua forma de supri-la era através de idas constantes ao bebedouro da fábrica e às noitadas regadas a cervejas com os amigos. As manchas pelo corpo – principalmente no pescoço – começaram a aparecer com mais frequência há alguns dias e, especialmente de um tempo pra cá, ele vem sentindo estranhas faltas de ar e inoportunas distensões abdominais. Fiquei pasma em saber de tudo isso e briguei com ele por nunca ter nos dito, uma vez que não podíamos perceber, afinal, ele passa a maior parte do dia fora de casa – inclusive nos finais de semana.
     Almoçamos a comida do hospital e, algum tempo depois, o médico nos surpreendeu com a notícia de que meu pai não receberia alta hospitalar tão cedo. Sua doença estava em estágio avançado e precisava de todo apoio para que não se alastrasse ainda mais pelo seu corpo, perfazendo com sua vida.

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     Novamente, fui à minha casa com a enfermeira. Já se passaram quinze dias desde o momento que meu pai foi internado por coma alcóolico e durante todo esse tempo, Raíssa – a enfermeira com quem fiz amizade – se dispôs a me ajudar. Dessa vez, fiz uma pequena mala para mim e me permiti a ficar o tempo que precisasse no hospital. Não me importava em ter que faltar da escola mais tempo. Arrumei o que precisava ser organizado dentro de casa e, novamente como tenho feito todo esse tempo, a fechei completamente, levando as chaves comigo.
     Regularmente, minha mãe me visitava no hospital trazendo comida. Seus braços ainda estavam roxos e ela precisava usar camisas com mangas compridas sempre que vinha. Ela perguntava pelo meu pai por alto e sempre enfatizava com desgosto minha saúde e disposição de faltar com meus compromissos sociais. Eu percebia que ela nutria grande preocupação para com ele, mas seu orgulho ferido a impedia de dizer qualquer coisa a respeito. Durante esse tempo, havia ligado para meu tio – irmão de meu pai – mas, por ele morar em outro estado, suas condolências e votos eram transmitidos apenas por telefone. Além de mim – e, de certa forma, minha mãe – meu tio era o único parente próximo à ele.
     Meu pai estava dependente do hospital agora e fazia radioterapia constantemente. Mesmo com os tratamentos necessários, a doença se espalhou pela maior parte de seu corpo. Assim que cheguei ao hospital, fui procurada pelo médico especialista. Assustei assim que fiquei de frente a ele, mas contive minha ansiedade.
     – Mariana, seu pai não está reagindo bem com nosso tratamento. Geralmente, ele consiste de poliquimioterapia, com ou sem radioterapia. – ele disse essa frase com um tom lento e amistoso, esperando que eu compreendesse – O esquema de radioterapia utilizado em seu pai não está sendo o suficiente para retardar o linfoma. Para os pacientes que sofrem recaídas da doença, são disponíveis alternativas, dependendo da forma do tratamento inicial utilizado. A forma que empregamos usualmente para esse tipo de doença é a radioterapia, mas como o caso de seu pai é grave – e não estamos obtendo respostas – o mais recomendado a fazer é um transplante de medula imediato.
     De certa forma, eu estava preparada para isso. Afinal, era câncer. Entretanto, a ficha só caiu quando o médico explicitou isso de forma clara. Em meio à lágrimas e soluços, esforcei para dizer:
     – Mas doutor, o que faremos? E se eu não for compatível?
   – Serei realista, Mariana. Atualmente tem se permanecido anos na fila de espera para conseguir um doador compatível. E seu pai não dispõe desse tempo todo. Preciso que você contate toda a família dele para que compareça ao hospital, de forma a realizarem os exames de compatibilidade. A vida dele depende disso.

Continua...

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