Tarde Demais - Capítulo V - Último Capítulo

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     O tipo sanguíneo de meu pai era – surpreendentemente – o mais difícil de encontrar. Segundo o médico, a aparição de um doador desse tipo era extremamente raro e, para pacientes com mais tempos de vida, o mais viável era a fecundação de um bebê in vitro, que poderia vir com o tipo sanguíneo exato em seu cordão umbilical. Mas Arthur Brandão não possuía esse tempo. No dia seguinte, Doutor Moraes me disse que antes da doação, o doador faria um rigoroso exame clínico incluindo exames complementares para confirmar o seu bom estado de saúde. E eu me submeti a ele.
     Nesse dia, fiquei a manhã toda dentro do laboratório do hospital fazendo os exames necessários. Minha ansiedade só não era maior que minha preocupação. O resultado do exame veio algumas horas depois, informando minha incompatibilidade. Lágrimas molhavam meu rosto e eram frutos de uma decepção amargurada.
     Tio Júnior veio em três dias – depois do comunicado – e trouxe seu filho de sete anos, afinal, também era uma possibilidade. Eram minhas últimas esperanças. O encontro dos dois causou uma emoção tremenda em todos que estavam presenciando a cena. Meu pai estava de cama, tomando soro, bem mais magro e agora, careca. Tio Júnior desabou em lágrimas e deu um forte abraço nele, mesmo contra a proibição do médico – alegando que ele não poderia fazer esforço. No mesmo dia de chegada, meu tio se submeteu ao exame junto de seu filho. Os resultados chegaram na manhã seguinte, ao mesmo tempo. Minha ansiedade estava exacerbada. Todos os dias rezo pela saúde de meu pai e não me permiti deixá-lo de lado um segundo que fosse.
     – Mariana – disse o médico – Espero que quando souber do resultado, entenda que não é o fim. Muitas pessoas conseguem passar na frente da fila de espera do transplante simplesmente por ter uma gravidade maior em sua doença, como é o caso de seu pai.
     Não gostei do que o médico disse. Parecia uma presunção do que viria a acontecer.

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     Eles não eram compatíveis. Nenhum deles. Como isso era possível? Ao saber disso, desabei em lágrimas, ainda no saguão do hospital. Para os outros, parecia apenas uma garota que acabara de perder um ente querido, mas para mim era mais: minha dor piorava cada vez que o destino conspirava contra a vida de meu pai e meu medo de perdê-lo aumentava a cada dia. Eu não poderia suportar mais. Ainda em prantos, notei minha mãe na porta do hospital, me olhando fixamente. Corri para seus braços e não parei de chorar por um bom tempo.
     – Por favor, mãe – disse, encharcando sua camisa com minhas lágrimas e soluçando de tanto chorar – Por favor, eu sei o que meu pai fez com você, mas tente salvá-lo. Pelo amor de Deus. Por mim. – eu não parava de chorar um segundo sequer. Parecia uma criança. Cheguei até a pensar que estava prestes a desmaiar.
     Ao olhar para cima, fitei os olhos de minha mãe. Eram olhos cansados, de uma mulher envolvida pelo tempo. Olhos de quem presenciou cenas e agressões dolorosas de um marido intimidador. Olhos de uma mãe que não aguentava ver o estado deplorável da filha. Olhos de um ser humano.
     Alguns minutos mais tarde, minha mãe se colocou a disposição para ir ao laboratório e realizar os exames. Apenas eu e ela sabíamos disso. Não tivemos o trabalho de contar a meu tio, muito menos a meu pai.
     – Mariana, querida. Saiba que faço isso por você e pelo homem que nunca deixei de amar. – ela suspirou – Apesar de tudo. – ao levantar a manga da camisa para a coleta, notei as manchas arroxeadas em seu braço. Abaixei meu rosto e chorei em silêncio. 
     Naquela tarde recebemos o resultado do exame, na sala de espera. Tio Júnior já estava sabendo da decisão de minha mãe e concordou em não contar a meu pai. Doutor Moraes veio entregar o envelope em mãos. 
     – Mariana, eu ainda não abri o envelope em seu respeito, e queria que você o fizesse. E não se esqueça do que eu lhe disse certa vez. Não perca as esperanças. Se Deus quiser, ainda haverá chance para seu pai. – seus olhos brilhavam. 
     Não hesitei em abrir o envelope. Assim que fiz, entrei em um estágio de divagações que me impediram de dizer qualquer coisa. O resultado estava nítido, para até o mais leigo entender. 
     Positivo. A compatibilidade foi recíproca. Minha mãe possui o mesmo sangue que meu pai.
     Não tinha mais nada a fazer naquele momento. Apenas ajoelhei no chão e não parei de chorar. Minha mãe, também emocionada, fez o mesmo, me dando um forte e caloroso abraço. Meu cansaço valeu a pena. Minhas esperanças surtiram efeito. Minha mãe salvou meu pai.

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     Já era noite, e Doutor Moraes bateu na porta do quarto de meu pai. Seu Arthur já sabia de sua condição em precisar transplantar a medula e das tentativas falhas em combinar os sangues. Parecia até conformado com os resultados. 
     – Arthur. Conseguimos! – seu sorriso era de satisfação – encontramos um doador compatível com seu tipo sanguíneo. 
     Meu pai, de costas em seu leito, permaneceu imóvel. Entrei logo atrás do médico para congratular sua vitória e percebi o silêncio do quarto. Havia trago minha mãe comigo, depois de uma conversa longa sobre o perdão. 
     – Pai, conseguimos! – não podia conter minha felicidade – Você se salvou! 
     Estranhei o momento seguinte. Não escutei lágrimas de alegria nem gritos emocionados. Meu pai ainda estava imóvel. O médico abaixou a cabeça, supondo o pior, e seguiu em direção ao leito de meu pai. Eu e minha mãe ficamos apreensivas, de frente à cama. 
     Ao virar meu gélido pai, Doutor Moraes notou seus olhos abertos, e nos fitou pesarosamente. Meu pai havia morrido. Pude perceber uma lágrima escorrendo de seu olho sem vida. Em suas mãos, apenas um manuscrito:
     “O amor é o que há de mais precioso nessa vida. Sem ele não chegamos a lugar algum e muito menos nos tornamos pessoas melhores. Não consegui transparecer o amor que realmente sentia, e se fiz, não foi do melhor jeito. Minha plenitude espiritual foi completada pelas melhores pessoas da face da Terra, que transcenderam de amor por um homem que nunca mereceu a terça parte dele. Peço perdão à minha honrosa esposa que esteve comigo por toda a minha vida e que se foi pela minha ignorância. Saiba que vou com vergonha por tudo que fiz a você,Violeta. Também peço perdão à minha filha que deixou de lado sua humilde vida para servir com amor os últimos dias de um velho estúpido. Minha querida Mariana. Agradeço ao Júnior pela visita e por ter me deixado ir com uma notícia que não coube em meu peito: Que minha doce mulher veio para me ajudar e tentar salvar esse pedaço podre de homem. E então me restou chorar pelo amor que salvou minha vida. 
Foi a última dádiva a que me permiti”.

Fim

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